Como tornar-se um filantropo milionário

Acabou de receber um milhão de euros. Com uma condição. Vai ter que o aplicar numa missão humanitária. Pode escolher entre duas possibilidades de enfermidades que afetam pessoas em todo o mundo. Sem referir o nome da doença, dizem-lhe que uma delas teve 416 casos reportados em 2013 e a outra cerca de 350 milhões estimados para o mesmo período.


Qual seria a sua decisão? Onde investiria o seu milhão de euros?


Depois de tomar a sua decisão esclarecem que em 2013 foram reportados 416 casos de poliomielite em todo o Mundo e que no mesmo período, num levantamento feito em 17 países, 1 em 20 pessoas referiu ter tido um episódio depressivo no último ano. Uma em cada 20 pessoas, ou seja, uma estimativa de 350 milhões de pessoas.


Mudava a sua decisão?


A primeira vez que o vi no palco não reparei logo. Depois de ler o livro e conhecer a sua história então compreendi porque os seus movimentos eram estranhos. Ken Robinsonteve poliomielite na infância e por isso os movimentos estranhos das suas pernas. Sim, Sir Ken Robinson que sobreviveu a uma doença grave para se tornar num educador que inspira milhares de pessoas no mundo inteiro a pensar a forma como educamos as nossas crianças, fica parado no palco porque se movimenta com alguma dificuldade.


Existem registos de poliomielite tão antigos que podemos dizer que existe desde sempre. Foi numa das muitas epidemias da primeira metade do século XX que Ken Robinson foi infectado.

Por causa disso, as suas pernas ficariam para sempre marcadas e os seus movimentos mais rígidos.


Há um vírus para a poliomielite e chama-se Poliovírus. Desde 1955 existe uma vacina que ainda hoje é utilizada para impedir que o poliovírus deixe mais pernas marcadas numa rigidez robótica, e ainda hoje continuam a existir campanhas mundiais para erradicar a poliomielite. Os números atuais? Em 2013 foram reportados 416 casos de poliomielite em todo o Mundo.


É um cenário de sucesso!


A depressão pode até ser comparada à poliomielite. Os sintomas depressivos que incluem entre outros humor depressivo e diminuição do interesse nas atividades habituais, são também sinais de uma certa rigidificação, não do sistema motor mas do sistema emocional. A flexibilidade na experiência e expressão emocional deixam de ser moduladas pelos episódios quotidianos. Em vez disso, mantém-se uma tonalidade emocional negativa constante e quase independente desses episódios.


Na maior parte dos casos a depressão é diagnosticada já na idade adulta, por vezes na adolescência. Mas quando é que realmente começa? Muito provavelmente começa cedo, mas na verdade não sabemos exatamente.


Que nome poderá ser dado ao vírus que nos deixa com rigidez robótica nos movimentos de aproximação ao outro, de confiança em nós mesmos e na obtenção de prazer no quotidiano?


Será que se tivesse um nome seria mais facilmente combatido? Haveria uma vacina? Haveria campanhas mundiais financiadas por filantropos milionários para a erradicar?


O sucesso na erradicação da poliomielite resulta de um trabalho consistente e propositado de mais de um século. Tal como a poliomielite também a depressão pode vir a ser um caso de sucesso. Mas ao contrário da poliomielite, qualquer pessoa em qualquer parte do mundo pode ser um já milionário filantropo e lançar a sua própria campanha de erradicação administrando vacinas.


Como?


  1. Elogiar. Reconhecer o outro, sobretudo o que fez bem. A frequente utilização de críticas activas e construtivas é essencial para a construção de relações positivas e nutritivas que são um dos pilares do modelo PERMA de Martin Seligman para o bem-estar. Fazer do elogio um dos ingredientes da comunicação quotidiana com uma criança vai ajudá-la a fortalecer os “músculos” emocionais.

  2. Ensinar os nomes das emoções. Identificar emoções é a competência base do modelo de Inteligência Emocional de Salovey & Mayer. Ao ser capaz de dizer o que está a sentir a criança pode mais facilmente diferenciar e gerir de forma ajustada os seus estados emocionais.

  3. Ajudar a expressar as emoções de forma adequada. Tal como ensinamos a pedir desculpa ou a dizer obrigada, também podemos ensinar a mostrar frustração, tristeza ou irritação como reguladores da interação com os outros.


Não precisa de esperar por esse milhão de euros! Pode começar já. Hoje.

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